Por que uma pessoa continua usando álcool ou outras drogas mesmo sabendo que isso está prejudicando sua saúde, sua família, seu trabalho e seus relacionamentos?
Para quem observa de fora, pode parecer uma escolha difícil
de compreender.
É comum surgirem perguntas como: “Por que ela
simplesmente não para?”
A resposta envolve muito mais do que força de vontade.
A dependência química é uma condição de saúde complexa.
Ela envolve fatores biológicos, psicológicos e sociais e pode provocar mudanças
importantes nos circuitos cerebrais relacionados à recompensa, motivação,
aprendizado e controle do comportamento.
Entre as substâncias envolvidas nesses processos está a dopamina.
Compreender seu papel ajuda a explicar por que o consumo
pode se tornar compulsivo e, principalmente, por que pessoas com dependência
precisam de tratamento e acolhimento, não de julgamento.
O que é dopamina?
A dopamina é um neurotransmissor. Em outras palavras,
é uma substância química utilizada pelas células do cérebro para transmitir
sinais.
Muitas vezes ela é chamada de “hormônio do prazer”, mas essa
definição é simplificada demais.
A dopamina participa de processos relacionados à motivação,
recompensa, aprendizado, movimento e tomada de decisões.
Imagine, por exemplo, uma atividade agradável.
Comer algo de que gostamos, conversar com alguém querido ou
alcançar um objetivo pode ativar circuitos cerebrais relacionados à recompensa.
O cérebro aprende que aquela experiência merece atenção e
pode aumentar a motivação para repeti-la.
Esse mecanismo é importante para nossa sobrevivência.
O problema surge quando determinadas substâncias interferem
intensamente nesse sistema.
Como as drogas afetam o sistema de recompensa?
Álcool e outras drogas podem alterar o funcionamento
cerebral de diferentes maneiras.
Apesar de cada substância agir de forma diferente, muitas
delas afetam direta ou indiretamente os circuitos de recompensa e a
sinalização da dopamina.
O cérebro começa a associar o consumo da substância a uma
experiência altamente relevante.
Com a repetição, essa associação pode ficar cada vez mais
forte.
Lugares, pessoas, objetos, emoções e situações relacionados
ao uso também podem se transformar em gatilhos.
Uma festa pode lembrar o álcool.
Um determinado grupo de amigos pode despertar vontade de
consumir.
Um momento de ansiedade, solidão ou frustração pode ativar
memórias associadas à substância.
O cérebro aprende essas conexões.
Por isso, a dependência não está relacionada apenas ao
efeito imediato da droga. Aprendizado, memória, contexto e emoções também
fazem parte do processo.
Por que a pessoa pode precisar de quantidades maiores?
Com o uso repetido de determinadas substâncias, o organismo
pode desenvolver tolerância.
Isso significa que a mesma quantidade pode deixar de
produzir o efeito anteriormente percebido.
Como consequência, algumas pessoas passam a aumentar a
quantidade ou a frequência do consumo na tentativa de alcançar os efeitos
desejados.
Esse processo não ocorre da mesma forma com todas as
substâncias ou com todas as pessoas.
Mas, quando acontece, pode contribuir para um ciclo
perigoso:
consumo ? adaptação ? aumento do uso ? mais consequências
negativas.
Além disso, aumentar as doses pode elevar o risco de
intoxicação, acidentes e outros problemas de saúde.
Quando o prazer deixa de ser o único motivo
Um aspecto importante da dependência é que, com o tempo, a
pessoa nem sempre utiliza a substância apenas para sentir prazer.
Ela pode começar a consumir para evitar desconfortos.
Quando existe dependência física, a redução ou interrupção
do consumo pode provocar sintomas de abstinência.
Esses sintomas variam conforme a substância e podem incluir
ansiedade, irritabilidade, alterações do sono, tremores, suor excessivo,
náuseas e outros desconfortos.
Em algumas situações, a abstinência pode apresentar riscos
médicos importantes.
Além disso, podem existir sintomas emocionais intensos.
Assim, o consumo pode passar de uma busca por determinado
efeito para uma tentativa de aliviar o mal-estar ou evitar a abstinência.
Esse é um dos motivos pelos quais interromper o uso pode ser
tão difícil.
O que é fissura e por que ela pode ser tão intensa?
A fissura, também chamada de craving, é um
desejo intenso de consumir determinada substância.
Ela pode aparecer mesmo depois de algum tempo sem uso.
Isso acontece porque o cérebro é capaz de guardar
associações entre a droga e determinadas experiências.
Imagine uma pessoa que costumava beber sempre depois do
trabalho.
Ao passar pelo mesmo bar, encontrar antigos colegas ou
chegar ao horário em que costumava consumir álcool, ela pode sentir uma vontade
intensa de beber.
O mesmo pode acontecer diante de emoções.
Estresse, ansiedade, tristeza, conflitos familiares e até
momentos de comemoração podem funcionar como gatilhos.
Isso não significa que a pessoa inevitavelmente voltará a
usar a substância.
Significa que identificar gatilhos e aprender estratégias
para enfrentá-los é uma parte importante do tratamento.
Dependência química muda o cérebro para sempre?
Essa é uma dúvida frequente.
O cérebro possui uma característica chamada neuroplasticidade.
Isso significa que ele é capaz de se adaptar e modificar
algumas de suas conexões em resposta a experiências, aprendizado e mudanças de
comportamento.
Por isso, embora a dependência possa produzir alterações
importantes, o cérebro não deve ser visto como algo condenado de maneira
definitiva.
A recuperação pode envolver a construção gradual de novos
hábitos, rotinas e fontes de satisfação.
Exercício físico, relacionamentos saudáveis, sono adequado,
alimentação, atividades significativas, trabalho, estudo, lazer e psicoterapia
podem fazer parte desse processo, de acordo com a realidade de cada pessoa.
A recuperação exige tempo.
O cérebro precisa reaprender que existem outras formas de
recompensa, segurança e bem-estar além da substância.
Por que “é só querer parar” não ajuda?
Frases como “você não para porque não quer” ou “basta ter
força de vontade” podem aumentar culpa e vergonha.
Além disso, elas simplificam um problema complexo.
Isso não significa retirar da pessoa toda responsabilidade
por suas decisões.
A participação ativa no tratamento é fundamental.
Mas responsabilidade é diferente de culpabilização.
Uma pessoa com dependência pode precisar desenvolver
habilidades para reconhecer gatilhos, lidar com emoções, reconstruir hábitos e
enfrentar situações que anteriormente estavam associadas ao consumo.
É justamente por isso que o tratamento profissional
pode fazer tanta diferença.
Como o tratamento ajuda o cérebro e o comportamento?
Não existe um único tratamento adequado para todas as
pessoas.
A abordagem pode envolver diferentes profissionais e
estratégias, dependendo da substância utilizada, do padrão de consumo e das
necessidades individuais.
Avaliação médica e desintoxicação
Em alguns casos, pode ser necessário acompanhamento médico
para reduzir ou interromper o consumo com segurança.
A interrupção abrupta de algumas substâncias pode ser
perigosa.
Por isso, pessoas com uso intenso ou prolongado devem buscar
orientação profissional antes de tentar enfrentar sintomas importantes de
abstinência sozinhas.
Psicoterapia
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma das
abordagens que podem ser utilizadas no tratamento dos transtornos relacionados
ao uso de substâncias.
A psicoterapia pode ajudar a pessoa a identificar:
- gatilhos
associados ao consumo;
- pensamentos
automáticos;
- situações
de maior risco;
- maneiras
de lidar com a fissura;
- estratégias
para prevenir recaídas;
- novas
formas de enfrentar ansiedade, estresse e outras emoções.
O objetivo não é apenas interromper determinado
comportamento, mas ajudar a construir novas respostas diante das situações
que antes levavam ao consumo.
Grupos de apoio
Grupos como Alcoólicos Anônimos (AA) e Narcóticos
Anônimos (NA) também podem fazer parte da recuperação para algumas pessoas.
Compartilhar experiências com quem enfrenta desafios
semelhantes pode ajudar a reduzir o isolamento e fortalecer uma rede de apoio.
Família e rede de apoio
A família também pode ter um papel importante.
Apoiar não significa vigiar permanentemente, controlar todas
as decisões ou assumir as consequências do comportamento da pessoa.
Uma rede saudável busca acolher, estabelecer limites e
incentivar a continuidade do tratamento.
Familiares também podem precisar de orientação psicológica e
apoio durante esse processo.
Recuperação significa ensinar o cérebro a construir novos
caminhos
A ciência da dependência ajuda a compreender uma mensagem
fundamental: dependência química não deve ser reduzida a uma questão de
caráter.
O cérebro aprende.
O cérebro se adapta.
E também possui capacidade de construir novos padrões.
A recuperação pode envolver avanços e dificuldades. Pode
exigir mudanças de rotina, acompanhamento profissional, reconstrução de
relacionamentos e desenvolvimento de novas maneiras de lidar com emoções.
Não existe uma transformação instantânea.
Existe um processo.
E cada período sem consumo problemático, cada gatilho
enfrentado de maneira diferente e cada escolha de continuar o tratamento pode
contribuir para fortalecer uma nova trajetória.
Se você percebe que perdeu o controle sobre o uso de
álcool ou outras drogas, não espere a situação chegar ao limite para procurar
ajuda. Converse com um profissional de saúde. Buscar tratamento pode ser o
primeiro passo para recuperar não apenas o controle sobre o consumo, mas também
espaços importantes da própria vida.